Meditação Técnica
Número 2/97
Retrocesso na NB-1
Norma para Cálculo e Execução
Obras em Concreto Armado
Raul Ferreira Bártholo
Engenharia...Presente, passado e futuro
Carta aberta a meus colegas da engenharia estrutural
Retrato de época
O que diz o Código de Ética dos Engenheiros ?
o Art. 1º diz: "...interessar-se pelo bem público e com tal finalidade contribuir com seus conhecimentos capacidade e experiência
para melhor servir a humanidade"
E o Art. 2º determina: "...considerar a profissão como alto título de honra
e não praticar nem permitir a prática de atos que comprometam
a sua dignidade",
Vivência atual: Alegria, Tristeza, Orgulho e Vergonha.
Teoria versus prática: Política social responsável, pequeno detalhe técnico.
Certamente, além de campeão de futebol, o Brasil já foi um dos países mais adiantados em termos de engenharia estrutural, antes de copiar a "retranca" européia. Adiantados justamente, por sermos um País de poucos recursos. Pobre, porém criativo. Com arte e ciência (métodos e processos), nossos antepassados tiveram o (heróico) mérito de procurar o máximo proveito das disponibilidades e potencial dos materiais.
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Pois a Engenharia Nacional ao visar funcionalidade, segurança e economia nessa ordem e, sem perder de vista também a razão pelo "ente" estético arquitetado, nossa NB. 1- "Norma para Cálculo de Concreto Armado" chegou, mundialmente, a ser uma das mais adiantadas -- lembravam nossos mestres.
Nela pude perceber, exploramos ao máximo a capacidade dos materiais.
Admitiam-se taxas das mais ousadas para limites de ruptura; e nossos mais reduzidos coeficientes de segurança, refletiam a experiência brasileira no dimensionamento econômico, exaurido o potencial do material. Com métodos de verificação obrigatórios, disciplinados pela certeza do que fazíamos, utilizávamos nossas réguas de cálculo; tabelas e ábacos de dimensionamento. Vivenciávamos a própria estrutura desde o mais íntimo aspecto construtivo. Formávamos o hábito de "sentir" número e significado de coeficientes. Tínhamos sempre presente a "ordem de grandeza", sentimento vivo da própria arte.
Na década de 70, após alguns acidentes lamentáveis (Gameleira, Paulo de Frontein, etc),
e certamente preocupados com problemas de ensino visivelmente comprometido, em 1978 revisou-se a Norma NB-1; praticamente a norma do CEB - "Comité Européen du Béton" foi traduzida. Evidentemente essa norma tem vantagens (unifica notações, etc). Porém, ao "copiar", o Brasil abdicou de sua maior experiência. Perda em favor do conservadorismo próprio de países economicamente mais desenvolvidos.
Assim inutilmente crucificamos colegas.
Copiamos taxas e critérios de segurança conservadores. Porém, lembro, o Prof. Aderson M. Rocha fez algumas observações até contrárias na "Revista Estrutura" tempos atrás. Restam dúvidas
e convicções antigas. Com todo respeito aos mestres de agora, registro esse "acovardamento técnico" assim configurado . Ao invés de enfrentarmos a verdade dos erros cometidos para bem aproveita-los no sentido da maior atenção cautelar, com mais amplo conhecimento da verdadeira causa -- a mais preciosa lição -- deixamos de firmar nossa experiência de menor custo, sempre repassada afinal em preciosos dividendos sociais. Hoje com certeza, não houvesse esse desperdício estrutural, estaríamos certamente muito mais avançados pelo menos na questão do "déficit" habitacional.
Certo ou errado, ao deparar com essa disposição na norma revisada, sem poder concordar com essa deseconomia e, sentir dúvida íntima sobre a própria ética segundo assim entendia, fechei-a. Preferi deixar de ser calculista estrutural, para guardar no orgulho a velha experiência profissional onde um dia pudesse escrever:
1 - Do orgulho e alegria, de contar erguidos todos edifícios construídos, calculados econômica e seguramente com a NB-1 versão de 1962.
Pois o chamado coeficiente de segurança era assim considerado:
Carga estática =1,65 (Edificações, etc)
Carga dinâmica: = 2,0 (Pontes, etc)
2.- Do orgulho e tristeza de recusar a continuar como calculista estrutural após a revisão dessa norma em 1978. Quando após quinze anos de comprovada experiência brasileira, esse coeficiente mudou de nome e passou a chamar-se "coeficiente de minoração". Dissimuladamente (assim observo) foi desdobrado em duas parcelas valendo 1,4 cada.
(uma para aumentar cargas; e outra para reduzir taxa de material).
Porém na prática, na divisão de fração, acabam transformadas em produto.
Embora modifiquem-se expressões, mantida formalidade da "Resistência dos Materiais e a sintética Análise Dimensional " o feito corresponde a elevar para 2,0 (ou mais) o que antes, dimensionalmente, era apenas 1,65. (Afinal: 1,4 não é praticamente "raiz de dois" ? Logo, o produto...)
Consequentemente (assim entendo) eleva custos e desperdiça material. Em última análise (e a grosso modo) esse diferencial, estruturalmente, onera a sociedade em mais 21 % desde 1978. Setorialmente, significa desperdício de energia e material além do mínimo antes necessário, (assim percebo) sem até hoje encontrar demonstração convincente em contrário. Significa maior ou menor custo social -- de uma só penada -- na ponta do lápis do engenheiro calculista.
3 - Da vergonha na verdade desnecessária. Pelo aleatório conhecimento como se devesse sentir "culpa íntima" por marginalidade: a NB-1 novamente estaria sendo revisada!
Ou por não entender porque Norma Técnica não tem periodicidade previamente definida (para revisão), sempre com mais ampla divulgação no meio técnico. No entanto, mesmo eventualmente envergonhado, acredito ser útil suscitar essa questão. Durante recente seminário perguntei ao expositor se ainda hoje se mantinham inalterados os citados coeficientes de minoração. Ante a resposta afirmativa, seja pois, até por dever de consciência; contribuição desse "ex-engenheiro estrutural" desatualizado diante da geração "software", dar conta desse histórico retrocesso (assim vislumbro) embutido nos "softs" da modernidade. Nenhuma justificativa, quero crer, deve existir para ampliar-se "coeficiente de segurança" para prevenir eventual "pane" metódica de computador; sem sombra de dúvida, ferramenta de maior utilidade para a engenharia estrutural. (Pela "confiabilidade" do programa poderia até haver redução no coeficiente!)
Porém nesse ponto, futebol ainda ensina. Computador, usa-se no devido lugar: "tira teima". Apenas é auxiliar; jamais substitui a arte. A concepção. O diálogo com a impossibilidade.
Claro, fui calculista no passado. Mas pretendo no futuro manter a velha sensibilidade (e prazer do orgulhoso trabalho). Antes de ser "moderno" (compudadorizado) apenas para ganhar dinheiro, indiferente, ainda prefiro a velha NB-1 da régua de cálculo. E o coeficiente, econômico. O (po)ético artesanato. E talvez ainda assim, por maior economia, prefira também algum cliente.
Afinal, pergunto:
Afinal, pergunto:
De acordo com o Art. 1º...
Posso ou não continuar a utilizar a NB-1, na antes bem experimentada versão de 1962 ? (Se a atual revisão não incorporar o "avanço" do passado). Afinal, se economia é íntima obrigação, onde está a maior ética da versão em vigor?
De acordo com o Art. 2º....
Peço perdão. Mas, justamente, sob a própria consciência ética:
A obrigação de cumprir a atual Norma, é minha verdadeira dúvida.
Ou haverão outras razões?
Campinas, 13 de setembro de 1996
Com respeito e apreço
Raul Ferreira Bártholo
Engenheiro Civil - CREA - 31.018/D
Pois eis.
Desencantado com a visão quase romântica da engenharia estrutural, pela impossibilidade íntima de continuar a produzir cálculo econômico -- conforme fizera por tantos anos -- sem sentir-me eticamente incomodado pela obediência à nova norma, deixei enfim de ser calculista. Dediquei-me ao Saneamento Básico, onde guardo até o presente em balanço íntimo:
1 - Orgulho de como diretor técnico do SAAE-Paulínia, SP. haver proposto a substituição do cimento amianto da adutora do rio Jaguarí, por outro material, em 1973 (Prot. 113/73).
2 - Orgulho profissional deno cargo de Diretor Técnico de haver implantado a 1ª Etapa do sistema de abastecimento dessa cidade (Paulínia, SP) e, efetuado revisões para ajustar a captação às cotas de cheias e estiagem (atestado anexo).
3 - Orgulho de haver projetado a Captação Nº 4 do Rio Atibaia para a SANASA na cidade de Campinas. Objetivava funcionalidade e economia correspondente a estabelecer acréscimo de vazão = 1.000 l/s (dobrava capacidade de abastecimento) na época.
4 - Orgulho e alegria de haver elaborado anteprojeto da ETA-Capivari para complementar o abastecimento do Distrito Industrial de Campinas (DIC) citada pela SANASA como exemplo de funcionalidade e economia. (atestado anexo).
5 - Orgulho de ousar, por projetar Decantador Tubular experimental de eficiência e máxima economia para operar em condição limite do regime laminar (Nº de Reynolds = 500). Objetivo da SANASA: recuperar a capacidade de vazão da ETA do DIC em Campinas.(atestado anexo)
6 - Orgulho especial de haver ao analisar a etapa de implantação da ETA-4, haver projetado sistema de saída (caixa de junção) capaz de interligar adutoras de grande porte sem interrupção significativa do abastecimento (senão por breves instantes). O desconhecimento do espaço de corte (lateral) ao tubo e tampão de diâmetro suficiente deixado adrede para ligação, sacrificou a população com 4 dias seguidos de falta d'água (Opção: furar 50 cm de concreto), como fato ocorrido em março de 1992 na cidade de Campinas (Artigo a propósito: "Vaidade, Incompetência e Desrespeito" - Correio Popular - 15.03.92).
7 - Orgulho preliminar e tristeza final de haver proposto a criação do atual Consórcio Intermunicipal da Bacia do Rio Piracicaba, em discurso gravado na Câmara Municipal de Americana. Nesse dia tomava posse para o cargo de Diretor do DAE daquela cidade.(Anais - 1/1/89)
8 - Orgulho cívico e profissional ao ser afastado desse cargo 38 dias após, pela recusa em demitir funcionários subalternos por motivos venais (solicitação política), conforme registrou a imprensa local.
9 - Orgulho especial por haver recusado o cargo de Diretor Técnico na SANASA em Campinas e, entregue ao Ministério Público as provas do superfaturamento da ETA-4. Fato essa havido como dever de consciência. Artigos, noticiario pela imprensa. Arquivos da época.
10 - Orgulho pioneiro de haver projetado em 1975 uma das primeiras ETAs compactas no Brasil, composta de "Filtro Russo" para o SAAE de Amparo; experiência bem sucedida até 1985 valorizada pela relação "custo benefício". Na época eram conhecidas as experiências de Colatina, ES; Cosmópolis e Cordeirópolis no Estado de São Paulo).
III - Na CETESB
1 - Orgulho e tristeza de haver lutado para instaurar-se auditoria na Regional da CETESB em Campinas, a qual culminou com o afastamento de poderoso ocupante em cargo de gerência regional eivada de corrupção, fatos na época amplamente noticiados pelos jornais dos sindicatos.
2 - Orgulho funcional e vergonha íntima por ser obrigado a deixar de utilizar Norma da CETESB referente a parcelamento do solo, para subscrever parecer de modo a propor a devida revogação pelos desvios de finalidade encontrados com sacrifício final de áreas verdes em loteamento - sob falseio em presunção de suficiencia e poder arrogado; representação feita nos termos do Estatuto dos Funcionários Públicos sem resposta até o presente.
3 - Orgulho funcional de na CETESB haver pugnado pela necessidade de publicar editais e cancelar validade de Licenças expedidas, para impedir fraude em emissão de 2 ª vias a conter alterações em relação ao objeto licenciado; visava corrigir prática escusa de gerências afastadas após parecer confirmatório da PJ.
Ainda, matéria a ser acrescentada)4..
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IV - No CREA
(Breve: matéria ainda a ser acrescentada)_
V - No SEESP.
(Breve: matéria a ser acrescentada)
(Breve: matéria a ser acrescentada)
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